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Roberto Acízelo de Souza fala sobre "Uma ideia moderna de literatura"

Foram necessárias quase duas décadas de trabalho para que o crítico Roberto Acízelo de Souza concluísse um projeto de amplitude e relevância raras em nosso meio intelectual: uma grande coletânea de textos, muitos deles traduzidos pela primeira vez para o português, reunindo num único volume os momentos definidores do debate sobre literatura na era moderna. O recém-lançado “Uma ideia moderna de literatura: Textos seminais para os estudos literários (1688-1922)” (Argos, R$ 110) mapeia em suas 640 páginas quase 250 anos de uma discussão que transformou a compreensão clássica da criação literária e constituiu assim o fundamento das controvérsias teóricas do século XX. Reunindo dezenas de trechos de autores de formação e nacionalidade diversas (de Charles Perrault a José Veríssimo, passando por Hegel e Matthew Arnold), alguns de não mais que uns poucos parágrafos e outros com muitas páginas de extensão, o livro oferece ao leitor brasileiro acesso direto a textos e argumentos até hoje muitas vezes disponíveis aqui apenas por meio de comentários de segunda mão. Professor da Uerj, Acízelo conversou por e-mail com O GLOBO sobre a obra.

Em sua introdução você menciona que muitos dos textos fundamentais para o estabelecimento do "universo conceitual" dos estudos de literatura são conhecidos no Brasil apenas "de referência ou, quando muito, através de paráfrases diluidoras". Seria justo dizer que ainda hoje, quase oito décadas depois da criação do ensino superior de Letras no Brasil, ainda persiste na área uma certa dose de amadorismo?

ROBERTO ACÍZELO DE SOUZA: Me parece que o conhecimento apenas indireto das fontes que procurei reunir no livro não é exclusividade brasileira. É verdade que estudiosos europeus e norte-americanos têm muito mais facilidade de acesso a elas do que nós, considerando os sistemas de bibliotecas ricos e eficientes de que dispõem, ao passo que permanecemos no Brasil pessimamente situados quanto esse apoio evidentemente essencial. No entanto, nos cursos de Letras aqui e no exterior há uma nítida preferência por formulações conceituais da atualidade, ou de um passado recente que no máximo alcança o início do século XX. Vou dar só um exemplo: fala-se às vezes de “impressionismo crítico”, definindo-se o conceito; mas é raro que se conheçam diretamente os ensaios nos quais Anatole France e Jules Lemaître propuseram o impressionismo como método, e não há dúvida de que definições de segunda mão nunca permitem se chegar a uma compreensão densa e matizada do que quer que seja: nada pode substituir o conhecimento do próprio processo que resulta na produção do conceito, e isso só se encontra nos textos que os formularam. Em síntese, então, eu diria, e em referência não só à situação brasileira: não vejo amadorismo no ensino universitário de literatura, mas muita superficialidade, e com frequência uma dolorosa ignorância da historicidade — digamos assim — dos conceitos de base que configuram a área.

Seria possível pensar em muitas discordâncias entre os autores reunidos em seu livro, a mais influente, talvez, aquela entre a ênfase no efeito estético proposta por Kant e a abordagem idealista da arte feita por Hegel. Em que medida se justifica o título "Uma ideia moderna de literatura"?

ACÍZELO: Pois é: como seria possível falarmos em “uma ideia moderna de literatura”, quando o próprio repertório reunido aponta para tantos matizes? Eu diria que, se vale a imagem, sendo diversos os matizes, a cor é uma só: a convergência está no fato de que, se para os antigos e neoclássicos os discursos escritos resultavam da aplicação de uma arte, entendida, a exemplo de tantos outros ofícios, como exercício de certa perícia ou habilidade passível de ensino e aprendizagem, para a modernidade a questão é bem outra. Constituem “literatura” apenas certa parcela dos discursos escritos — basicamente, as ficções, de cunho lírico, narrativo ou dramático —, resultantes não da contínua reciclagem de materiais coletivos, mas da criatividade subjetiva e particular de cada indivíduo, parcela por isso vocacionada muito mais para subversões e rupturas do que para a reiteração da ordem tradicional estabelecida. Mas a pergunta é tão pertinente que me conduz a uma suspeita que só agora me ocorre, provocada pelo curso da nossa conversa: o próprio arranjo do livro, empenhado na apresentação de "uma ideia de literatura", pode muito bem constituir, em tempos de exaltação do "fragmento", sintoma de uma certa nostalgia da "unidade" e do "conjunto".

Você menciona dois trechos, um de Novalis e outro de Flaubert, para mostrar que no período abrangido por seu livro “convivem dois princípios antagônicos e concorrentes relativos ao conceito de literatura”, uma poética do fragmento e outra da arte totalizadora. Como se relacionam essas tradições, e quais são seus principais representantes?

ACÍZELO: Bem, se vale a hipótese que formulei no texto da apresentação, “unidade” e “conjunto” foram palavras de ordem amplamente hegemônicas na modernidade estética dos séculos XVIII e XIX, isto é, no período que o livro se propôs cobrir, ao passo que o “fragmento” teria a sua vez sobretudo ao longo do século XX, principalmente nas manifestações mais tipicamente identificadas com o ânimo modernista. Quanto a outros representantes de uma e outra orientação, além de Novalis e Flaubert, se o âmbito da escolha for constituído pelos autores reunidos no livro, naturalmente encontraremos muito mais partidários do “conjunto” do que do “fragmento”. Mas, se tivesse de fazer uma classificação com base neste critério, provavelmente me embaraçaria em muitos casos, pelo entrelaçamento previsível entre os dois princípios em questão. É que talvez estejamos aqui diante de uma situação muito comum nos nossos estudos: um in sight teórico de operacionalização analítica difícil, se não inviável, ou pelo menos incapaz de, uma vez aplicado, produzir resultados verdadeiramente interessantes.

Ao combinar, em sua seleção, contribuições de figuras de formação diversa, seu livro demonstra que a reflexão sobre literatura na era moderna não foi uma atividade especializada, praticada por uma classe intelectual específica, mas antes uma questão que mobilizou igualmente filósofos, críticos, historiadores e os próprios escritores. Seria possível identificar os principais fatores que fizeram com que a discussão sobre literatura assumisse tal importância? Com que outras questões modernas ela está vinculada?

ACÍZELO: Vamos por partes. Especialização e generalismo são duas determinações contraditórias, que os estudos acadêmicos, porém, devem procurar compor de algum modo. Como especialista em algo, só posso conversar sobre este algo com outros especialistas da minha área. Se, no entanto, o objeto da minha especialidade despertar interesse social mais amplo, convém que eu saiba dialogar sobre ele com pessoas das mais variadas especialidades, o que me obriga a dispor também de uma entrada generalista — isto é, de interesse geral — no meu objeto. Aí podemos perguntar, tomando um exemplo: que realização tem mais potencial para motivar interesses que transcendam o círculo fechado de uma especialidade: um romance ou uma descoberta da química? Ora, sobre um romance animam-se a falar — e a ouvir ou ler — não apenas professores de literatura e críticos literários, mas leitores em geral, ao passo que a transformação de um tópico de química em campo de interesses convergentes é muito mais problemática. Assim, é inerente ao modo de ser não só da “literatura”, mas também das “letras” (conforme a distinção que vamos aqui fazendo), essa capacidade de suscitar interesse para além do circuito de especialistas. Isso de resto se fundamenta no conceito clássico de “humanidades”, entendido como um saber distinto e em certo sentido oposto ao constituído como “ciência”; isto é, uma “cultura geral”, que interessa ao gênero humano tomado em seu conjunto, e não a segmentos dele, como as comunidades de especialistas. As “letras” e a “literatura”, assim, praticamente se confundem com as “humanidades”, sendo por definição um campo onde conseguem de algum modo conversar filósofos, críticos, historiadores, poetas, ficcionistas, e onde naturalmente também tem a sua vez o próprio senso comum. Nesse sentido, as “letras” e a “literatura” são profundamente políticas, se se entender por política o contínuo empenho de construir uma linguagem capaz de estabelecer comunicação entre diferenças.

Sua seleção inclui, entre os nomes mais usuais em coletâneas do tipo, autores brasileiros, além de portugueses e espanhóis. Uma inclusão natural, você argumenta, embora em geral negligenciada por antologistas franceses, anglófonos ou alemães. Como os brasileiros, em particular, participaram dessa discussão, e até que ponto formularam-se aqui ideias originais, que não fossem apenas repetição dos debates europeus?

ACÍZELO: Essa questão de originalidade das ideias nos levaria longe. É sempre muito discutível até que ponto os próprios autores europeus são originais. Mas acho que o foco da pergunta é outro: trata-se da questão colocada por nossos primeiros românticos, empenhados em postular e consolidar o que eles chamavam a “originalidade da literatura brasileira”, por sinal título de um dos capítulos daquela que é, sob certos aspectos, a primeira história da literatura brasileira: a de Joaquim Norberto, fragmentariamente publicada de 1859 a 1862. Pois bem, sobre isso minha compreensão é a seguinte: o sistema intelectual brasileiro faz parte do Ocidente cultural, e não me parece haver qualquer dúvida a esse respeito. Nesse sentido, sempre me pareceu descabida essa cobrança de distância em relação a matrizes culturais europeias, essa ojeriza à “importação” de ideias “estrangeiras”, como se nos fossem estranhas tais ideias, como se a apropriação do que desde sempre também nos pertenceu constituísse “importação” espúria e indesejável. Não posso compreender isso senão como obsessão romântica de autoafirmação nacionalista, e diria que nem a racionalização antropofágica me convence do contrário. Assim, não me parece que nós brasileiros temos a obrigação de evitar “repetição dos debates europeus”: nós e os europeus somos ocidentais, e pois o debate é nosso também.

Estendendo-se de 1688 a 1922, seu livro deixa de fora aqueles textos que geralmente entendemos como constituindo a teoria literária propriamente dita. Enquanto a escolha da Querela dos Antigos e dos Modernos como marco inicial é justificada de maneira clara, a interrupção em Proust é explicada de modo mais ou menos indireto, pela alusão às rupturas modernistas. Como se definiram os limites de seu livro?

ACÍZELO: No começo, apenas achei que podia deixar de fora todo o século XX — isto é, o século da “teoria literária propriamente dita”, conforme a formulação precisa de sua pergunta —, e isto por uma razão meramente prática: a óbvia facilidade maior de acesso a obras atuais ou relativamente recentes, o que, é claro, não justificaria integrá-las no repertório planejado. Mas, à medida que avançava no projeto, concluí que o campo permanecia muito vasto. Então, a necessidade de delimitá-lo melhor me obrigou a refinar os critérios de seleção. Aí pensei o seguinte: há uma evidente fronteira entre uma compreensão antiga e neoclássica das “letras” e o conceito moderno de “literatura”, situando-se no século XVIII o momento de separação entre esses dois — digamos — continentes conceituais, cristalizando-se na noção de “belas-letras” uma zona de transição entre eles. Assim, elegendo a “literatura” como objeto — e não as “letras” — a Querela dos Antigos e dos Modernos me serviria muito bem como um dos limites cronológicos que eu buscava. Quanto ao outro, como disse, eu já dispunha dele, com a exclusão do século XX, mas faltava uma razão que não fosse apenas prática para adotá-lo. Pensando na questão, acabei me convencendo de que o modernismo podia ser concebido simultaneamente como consumação e ultrapassagem da modernidade, o que de resto tem a ver com as discussões em torno do assim chamado pós-moderno. Com isso julguei resolver o meu problema: o repertório a ser construído cobriria basicamente os séculos XVIII e XIX, com curtas extensões, antes e depois desses marcos, que me pareceram perfeitamente justificáveis à luz do critério adotado. Desse modo, cheguei a uma solução que, se não era uma rima, era pelo menos uma aliteração, e com a simetria de se constituir com dois autores por acaso franceses. O percurso ficou sendo portanto: de Perrault a Proust, desenho do projeto que me pareceu satisfatório.

O quanto as teorias literárias surgidas no século XX se distanciaram dos parâmetros estabelecidos pelas discussões que seu livro mapeia? Quer dizer, o quanto a reflexão teórica produziu de fato uma ruptura com a discussão que a antecedeu, e o quanto continuamos, ainda hoje, devedores desses textos que você descreve em seu subtítulo como “seminais”?

ACÍZELO: Primeiro, a pergunta me dá a chance de registrar um crédito que, no esforço de dar conta dos muitos detalhes de organização do livro, acabou me escapando: devo o “seminais” do título a Luiz Costa Lima, que, na década de 1980, quando da criação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro de um curso de doutorado em literatura comparada, idealizado por Dirce Riedel, propôs que uma das disciplinas do currículo se chamasse “Textos seminais em teoria da literatura”. Mas venhamos à pergunta, que vou tentar responder me valendo de uma distinção muito apropriadamente proposta numa de suas questões: pode-se reconhecer, no período mapeado pelo livro, uma linhagem de pensamento que vem de Kant, e uma outra que procede de Hegel. A hegeliana fundamentou o historicismo e se tornou hegemônica no século XIX, implicando a disciplinarização dos estudos literários sobretudo como história das literaturas nacionais, uma investigação, portanto, da nacionalidade, romanticamente concebida como o telos da produção literária. A linhagem kantiana, por seu turno, constituiu como que a base difusa de uma nova configuração disciplinar dos estudos literários, definida a partir do início do século XX, sob o influxo das experiências estéticas do modernismo, e que veio a chamar-se no meio universitário teoria da literatura. A linguagem literária passa então a ser concebida não mais como transparência do nacional, mas como autorreferência, e assim, nos estudos literários, a nacionalidade cederia vez à literariedade. Hoje há fortes indícios de uma nova configuração da área, mas isso seria história um tanto alheia ao universo de questões sugeridas pelo livro objeto de nossa conversa.

23/07/2011

Fonte: Prosa Online

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