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Filósofo norte-americano diz que o Brasil pode ser um bom oponente contra os EUA

A conferência A estética da singularidade, ministrada na noite de segunda-feira na Fundação Joaquim Nabuco, parece ter sido apenas um bom pretexto para a visita ilustre do filósofo norte-americano Fredric Jameson, 77 anos. Dono de inquietações que cobrem diversos campos do pensamento (da crítica literária à gastronomia), o marxista se inteirou da vida cultural da cidade, assim como de seus principais atrativos culinários - durante o final de semana hospedado em Pernambuco, não passou imune à buchada de bode do Entre Amigos, ao tradicionalismo do Leite, nem às morangas do Oficina do Sabor.

O teórico falou com exclusividade ao Diario de Pernambuco. As perguntas que seguem foram elaboradas por um time de especialistas e leitores eminentes composto pelo professor do Programa de Pós-graduação em Letras da UFPE, Anco Márcio Tenório Vieira; a professora do Bacharelado em Cinema e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE, Angela Prysthon; e pelo pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e curador da 29ª Bienal de São Paulo, Moacir dos Anjos.

Entrevista >> Fredric Jameson

"Há algo realmente especial acontecendo no Brasil"

A.M.T.V. - O senhor defende que a literatura produzida nos países periféricos, em particular os países que se libertaram do jugo colonial na segunda metade do século passado, projetam em suas obras uma dimensão política na forma de alegoria nacional, de modo que o destino individual e o destino privado dos personagens se reduzem a uma situação de luta da cultura e da sociedade públicas nesses países. Sua afirmativa significa dizer que as literaturas periféricas em nada contribuíram para as linguagens cultivadas no mundo ocidental?

O ensaio sobre a noção de alegoria é muitas vezes mal interpretado e necessita de alguma explicação. Ele foi escrito nos anos 1980, quando eu estava na China, e percebi que, fora dos Estados Unidos, as pessoas falavam em acordo sobre as situações nacionais. Os leitores tomaram isso como uma prerrogativa dos países de terceiro mundo. Na verdade, deveria ser uma lição para os norte-americanos sobre outros países. O ponto é que a alegoria, quando emerge em um grupo, é personificada no destino de cada indivíduo.
Mas individualismo é crescente e sujeitos tendem ao não pertencimento a grupos. Penso que esse tipo de individualismo toma lugar quando os países se tornam ricos e mais ricos. O que queria dizer é que nas sociedades mais coesas, as histórias que as pessoas contam tendem a ser histórias do grupo, relacionados à fé do grupo. Ao passo que na América e, isso é verdade agora, as pessoas têm problemas no uso do termo “nação”. A literatura que eu menciono é a chinesa de 1920 e do Senegal dos anos 1940-1950, áreas em que a nação é a coletividade, ou o sentido de nação é informação. Ou digamos: o coletivo estava se movendo em direção a algo que podemos chamar nacional.

A.P. - Há 25 anos seu texto sobre a literatura do terceiro mundo deu origem a polêmicas com acadêmicos de diversos países, sobretudo no que se refere às alegorias nacionais. Como você vê agora o debate depois de tanto tempo, tendo em vista principalmente o cinema contemporâneo? É possível retomá-lo? De que modos?

É um pouco mais complicado para o cinema porque é um pouco mais óbvio que você tem um tipo de pessoa sendo representada na tela, e uma outra classe de pessoa assistindo. Mas certamente, em muitos países, há um cinema nacional que afirma este fenômeno alegórico.

Hollywood é um cinema nacional? É muito difícil de dizer. Talvez haja certos tipos de gêneros, os westerns, por exemplo, que se encaixariam em certo “ninho” americano, mais do que na identidade americana. Diria que no cinema, de um maneira geral, no antigo cinema, explorava-se mais o destino ou miséria da nação. Em ambos os casos, o que os países expressam não é apenas o seu sucesso, mas especialmente os seus fracassos: suas falsidades, suas fraquezas. Sobre o cinema de hoje é muito difícil fazer esse tipo assertiva porque os grupos não são mais tão bem definidos.

M.A. - O fato de vivermos, como o sr. afirma, em tempos "inclassificáveis" pode nos desnortear, pois coloca em suspensão conceitos e convenções. Além de nos acuar, o “inclassificável” também não nos confere um maior poder de invenção?

Não estou certo do que denomina de tempos inclassificáveis, mas obviamente tempos de instabilidade podem ser mais produtivos e criativos do que os tempos de conforto e tranquilidade. Por outro lado, parece-me que na arte que se praticava há algum tempo artistas sabiam aonde estavam indo, ou aonde queriam chegar. Não sei se hoje em dia possuem essa direção. Os acontecimentos nos Países Árabes têm um visão clara do que deve ser mudado e do que deve permanecer. Uma revolução traz muitas coisas dentro de si, mas aponta sempre para uma direção. Em outros países, acho que há uma grande confusão e uma falta de orientação. Uma confusão que não é unicamente política, mas algo que fala da ausência do próprio modernismo. Os artistas estão tentando encontrar alguns tipos de solução e, na verdade, o que dita o movimento da arte de hoje são museus, as galerias de arte, a crítica, em um processo sem muita direção.

P.C. - Por que viajar ao Brasil? Imagino que o senhor receba esse tipo de convite em todos os lugares do mundo. Julga que há algo de especial acontecendo aqui? Pensa que podemos construir um modelo de cultura em oposição ao modelo norte-americano?

Sim, acho que há algo realmente especial acontecendo aqui e foi um dos poucos países que não sofreram com a última crise econômica. Penso que a experiência de vocês com Lula foi bastante interessante e bem-sucedida. É uma realidade que não acontece em boa parte do mundo. Estou interessado no que as pessoas estão pensando por aqui, que tipo de arte elas estão produzindo, que tipos de livro estão escrevendo. É muito excitante estar aqui agora. Estive aqui há uns 10 ou 15 anos e a mudança é muito clara. A oposição seria muito saudável para nós. Não é bom para os Estado Unidos serem o país mais poderoso sem nenhum tipo de oposição no mundo. Os europeus e os japoneses não nos fazem oposição nenhuma. Os soviéticos já fizeram, e foi muito bom para eles e para nós. Agora nós precisamos ser corrigidos, encontrar resistência. Esse tipo de poder necessita barreira, um contrapeso. Talvez o Brasil, a Índia e a China consigam fazê-lo, mas precisamos ver. Por Paulo Carvalho, do Diario de Pernambuco.

31/05/2011

Fonte: www.diariodepernambuco.com.br

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